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sábado, 19 junho, 2010 14h29

Fora do Eixo fortaleceu o cenário das bandas independentes

   
Pedro Reis | FarolCom
Danislau, Marthayza e Chelo

Cerca de dez anos atrás, quem tivesse banda em Uberlândia e quisesse fazer shows, sentia uma frustração enorme. Nenhuma casa na cidade dava espaço para bandas de rock que compunham as próprias músicas.

Quem tinha banda cover tinha espaço. Mas o som autêntico, experimental e autoral só podia contar com calouradas, casas de amigos e algumas tentativas de agito cultural da época, como o saudoso Barulho na Praça, que todo mês levava shows a alguma praça pública da cidade.

Nesse contexto, duas bandas seminais de Uberlândia surgiram: Pau de Bosta e Dead Smurfs. A primeira, misturando rock, pop e mpb. A outra, tocando punk rock de forma explosiva. Ambas conquistaram um público fiel, levando muita gente aos shows, e fazem parte da mitologia musical da cidade.

O Pau de Bosta acabou virando PdB, e depois Porcas Borboletas. E foi após a mudança de nome que as coisas começaram a acontecer de verdade.

Não só para a banda, mas para toda uma geração de bandas novas da cidade. “Antes de mexer com banda, eu tava na faculdade e a gente viajava muito. E a gente percebia que a rapaziada de Uberlândia tinha uma loucurinha que era bem particular mesmo. E foi quando essa loucura começou a se organizar melhor que a coisa começou a caminhar. Eu acho que esse desenho começou a ser traçado muito espontaneamente, não só por causa do Porcas, mas de toda uma rapaziada que começou a trabalhar sério com música”, diz Danislau, vocalista e guitarrista da banda.

O Dead Smurfs e o então Pau de Bosta se encontraram pela primeira vez num Barulho na Praça. O rock foi o catalizador de uma amizade que hoje é colaboração. Chelo, que era do Dead Smurfs e toca com Diego Moraes em outros projetos, entrou recentemente na banda, após a saída de Rafael. Depois de passar um tempo em Goiânia, ele também percebe que a atitude "punk" de Faça você mesmo foi o principal motivo do fortalecimento da cena independente no Brasil. “Hoje na banda todo mundo tem que fazer tudo, tem que saber um pouco de tudo, trabalhando junto. Tudo que tá rolando agora é "Do it Yourself", caras fazendo evento do nada, levando para tocar por conta. Isso é bem "punk", "do it yourself" mesmo.

O surgimento do Circuito Fora do Eixo (CFE) possibilitou que o faça você mesmo se tornasse Façamos Todos Juntos.

Com a internet, ficou mais fácil manter contato com gente do país inteiro interessada em fazer a mesma coisa; criar possíbilidades para artistas mostrarem o que estão fazendo, sem depender da mídia comercial e da indústria vigente. Festivais começaram a pipocar em todo o país. Bandas do Norte, que antes encontravam dificuldade em aparecer no Sudeste e no Sul, agora contam com o apoio de Coletivos integrados, no Brasil e em outros países da América Latina.

Danislau acha que o surgimento do CFE ajudou bastante o Porcas a conquistar espaço. “O CFE para o Porcas foi fundamental. A gente tocou em festivais e em várias cidades com o suporte dos coletivos locais. É um esquema que funciona muito bem, ainda bandeirante, com o facão na mão, desbravando o país. As pessoas hoje em dia estão nessa fita de tentar se manter o mais independente possível da indústria, dessa coisa do dinheiro”.

A vantagem de existir um circuito organizado no país é que as bandas podem começar a planejar turnês internacionais. Tendo como tocar pelo Brasil trás maturidade e experiência para as bandas, e muitas já arriscam a excursionar no exterior, usando grana do próprio bolso, como é o caso do Lucy and The Popsonics e do Black Drawing Chalks.

E o Porcas Borboletas?

“A gente tá super afim, estamos num processo bem adiantado, negociando shows pela Europa. Até porque a gente tem a curiosidade de saber como será a recepção de um público que não fala nossa língua”, afirma Danislau. E como lembra Chelo “o inverso também, tem muitas bandas do Toque no Brasil que são da Bolívia, Chile, Uruguai...”. Ou seja, o cenário está próspero não só para as bandas nacionais, como para as dos países vizinhos.

A recente polêmica criada pelo jornal Folha de São Paulo (só para assinantes), que alegou que muitos organizadores de shows agem de má fé e são completamente dependentes de recursos públicos, não parece justa, segundo Danislau. “Na prática a gente sabe que a maioria das coisas acontece sem verba pública mesmo. Mas não acho que role uma destinação desordenada de dinheiro público para o seguimento do rock independente, pelo contrário. Tem muito festival aí que tá sendo feito às próprias custas, com um ou outro benefício. Lembro que no Twitter o pessoal começou a fazer uma lista enorme de eventos que aconteceram sem verba pública.”

Devagar e sempre, o Porcas Borboletas tem conquistado espaço na mídia, coisa praticamente impossível dez anos atrás para uma banda do interior do Brasil, longe de um grande centro, ou do Eixo Rio-São Paulo. Danislau conta a fórmula secreta por trás do sucesso da banda: “A gente trabalhar da maneira mais séria possível, né. Fazer shows de qualidade, sempre tentando enriquecer a experiência da banda com grau de sinceridade e verdade, que acaba repercurtindo não só na qualidade do nosso trabalho como nos shows. Acho que vale a pena a gente tentar fazer o que quer, só que trabalhar pra isso como se estivesse trabalhando num banco. Tem que botar energia.”

Necessitanto ou não de recursos públicos para acontecer, o que a gente vê são dezenas de festivais acontecendo no país todo, revelando novos nomes da música nacional, com diversidade de estilos e sem a necessidade de vender a alma para a indústria do entretenimento. Tudo isso é a prova concreta de que a união faz a força, e que ser indepentende não significa falta de apoio.

Marthayza Ferreira
É jornalista, agitadora cultural e apaixonada pelo The Clash
@marthayza no Twitter
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