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Instituto Eu Quero Viver

15/09/2008

Cafeicultura mais encorpada

 
IAC
Estudo aponta para o nascimento de um novo segmento agrícola em São Paulo com o estímulo, previsto para os próximos anos, do cultivo de café robusta no estado, cuja produtividade é maior e o custo de produção menor do que o café arábica

Confirmando a tendência de crescimento da demanda por café robusta (Coffea canephora) em todo o mundo, um estudo feito por pesquisadores do Instituto de Economia Agrícola (IEA) e do Instituto Agronômico (IAC) concluiu que a agricultura paulista está prestes a criar um novo segmento: um aumento significativo do plantio da espécie está previsto para os próximos anos no interior do estado.

O trabalho, publicado na edição de agosto da revista Informações Econômicas, mostra que esse aumento deverá ser estimulado pelo custo de produção mais baixo e pelo manejo agronômico mais simples do café robusta em relação ao café arábica (Coffea arabica).

“Como o próprio nome diz, a planta do café robusta é mais vigorosa e produtiva, desde que adequadamente manejada do ponto de vista agronômico. Seu custo é inferior porque ela é tolerante a doenças fúngicas e a pragas às quais o arábica é extremamente sensível. A produtividade do robusta também é significativamente maior”, disse Celso Luis Vegro, pesquisador do IEA e um dos coordenadores do estudo, à Agência FAPESP.

O trabalho é um dos resultados do projeto Relações entre os setores de produção e industrialização do café dos principais estados produtores brasileiros e a economia nacional: um modelo inter-regional de insumo-produto, apoiado pela FAPESP na modalidade Auxílio Regular a Pesquisa, em projeto coordenado por Flávia Maria de Mello Bliska, do IAC.

De acordo com o estudo, o custo para a safra 2005/2006 de produção do café robusta foi de R$ 114,79 por saca, enquanto o do café arábica foi de R$ 234,83 por saca. O Estado de São Paulo é responsável pela industrialização (torra, moagem e solubilização) de aproximadamente 40% de todo o café produzido no território nacional.

“Tradicionalmente em São Paulo se produz café arábica. Em uma média de duas safras, colhem-se no estado aproximadamente quatro milhões de sacas de café beneficiado, para um consumo que já se aproxima dos seis milhões de sacas. Por conta disso, o estado precisa comprar café de fora, principalmente de Minas Gerais, Paraná, Espírito Santo e Rondônia”, explicou Vegro.

O consumo brasileiro de café atinge hoje 17 milhões de sacas ao ano. Mas é justamente da demanda não atendida pela cafeicultura paulista, no entanto, que surge a possibilidade de sua diversificação com a cultura do café robusta, que tem ainda uma concentração de sólidos solúveis maior que o do arábica.

“Enquanto no arábica o teor médio de cafeína é de 1,2%, no robusta essa concentração chega a 4%. Isso é apenas um exemplo entre as mais de 1,2 mil substâncias gustativas e aromáticas existentes em um grão de café”, disse o pesquisador.

“No café robusta há um maior rendimento de sólidos solúveis por unidade de produto processado, o que torna o produto uma matéria-prima por excelência para a indústria. Não há dúvida de que o fortalecimento competitivo da indústria de solubilização no Brasil depende de uma oferta consistente de café robusta”, disse.

Outro ponto importante é o fato de o porto de Santos embarcar cerca de 65% das exportações de café e o país ter uma carteira de pedidos de café robusta que não consegue ser atendida, devido à grande concorrência que existe por esse produto. “Ampliar a oferta paulista do produto dinamizaria tanto o mercado interno como o comércio exportador”, afirmou.

Mistura de cafés

Vegro esclarece que, por ser um produto mais barato do que o arábica, a indústria tem usado a estratégia de adicionar um percentual crescente de café robusta no arábica, para manter a competitividade. A produção de café robusta no Brasil é da ordem de 11 milhões de sacas por ano, sendo que pelo menos 8 milhões delas são misturadas ao arábica para o suprimento interno.

“Atualmente, as principais marcas de café comercializadas têm entre 40% e 60% de robusta na liga – e muitas vezes se trata de um café robusta mal preparado, o que acaba prejudicando o resultado final do produto”, apontou.

O estudo mostra ainda que o plantio de café robusta pode ser indicado para áreas onde o cultivo de cana-de-açúcar tenha restrições ou que não reúnam condições adequadas para o café arábica.

“A legislação ambiental no país está apertando o cerco contra a queima da cana-de-açúcar. Paralelamente, a legislação trabalhista pressiona os usineiros para que melhorem as condições de trabalho no corte, sendo a mecanização uma tendência inexorável”, lembrou Vegro.

A colheita com máquinas, aponta o pesquisador, é possível apenas em áreas em que a declividade não vai além de 15% a 20%, fazendo com que um grande número de áreas agrícolas possa se tornar imprópria para o cultivo da cana nos próximos anos. “E o robusta mais uma vez aparece como alternativa economicamente consistente para a diversificação dos produtores”, reforça.

O pesquisador do IEA, órgão vinculado à Secretaria de Agricultura de São Paulo, ressaltou, no entanto, que a produção do café robusta ocorrerá de modo complementar à produção do café arábica no estado, uma vez que o arábica deverá continuar prevalecendo nos cinturões em que as condições de altitude e de temperatura são favoráveis a esse cultivo.

Essa tese é reforçada por um amplo zoneamento agroclimático para o café robusta, realizado recentemente por técnicos do IAC, que mostra que as zonas preferenciais para seu cultivo são bem divergentes daquelas em que se concentra o arábica.

“Portanto, o segmento do robusta se estruturará sem qualquer prejuízo para o arábica, sem contar que não haverá estímulos financeiros para os produtores que adotarem o robusta fora do zoneamento indicado. A meta do setor produtivo em São Paulo é fazer com que o robusta não interfira no arábica, e vice-versa. Será buscada a complementaridade”, apontou.

Segundo Vegro está prevista, ainda para 2008, a instalação de cerca de 80 hectares de café robusta em caráter experimental no interior paulista, sendo que novas políticas públicas para o setor poderão ser criadas a partir de 2009, permitindo a agregação da agricultura familiar nesse novo segmento.

Com a inclusão de dotações orçamentárias e a reconfiguração de fundos de investimentos existentes na Secretaria de Agricultura e Abastecimento, a agricultura familiar também será beneficiada. “É grande o potencial de geração de renda local e as oportunidades de emprego desse novo segmento produtor de robusta no estado”, disse.

Segundo ele, em um primeiro momento o interesse é maior por parte da agricultura empresarial. “A estação propícia para o plantio se inicia em outubro, daí a urgência desse setor que será o primeiro a experimentar os lucros que a atividade irá gerar”, destacou Vegro.

“O café tem o potencial de gerar renda no local em que é cultivado, diferentemente da cana-de-açúcar, setor no qual há uma imensa concentração econômica em grandes grupos nacionais e transnacionais. A previsão do setor é que o cultivo do robusta possa exibir crescimento muito razoável diante das necessidades da indústria paulista nos próximos dez anos”, disse.

Mais informações sobre o estudo.

Por Thiago Romero | Agência FAPESP


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